Ellen Oléria traz o afrofuturo na palma da mão

Terceiro disco solo versa sobre ancestralidade, amor e esperança

O novo ciclo de Ellen Oléria já começou – tem a ver com a mudança para São Paulo, prestes a completar um ano e, principalmente, com a chegada do aguardado “Afrofuturista” (independente). Aos poucos, a metrópole vai cabendo na palma da sua mão e escancarando as suas trilhas urbanas e sonoras. Das 20 músicas gravadas, 13 foram escolhidas para o álbum físico (a versão digital conta 17 faixas), terceiro solo que, contando com os discos das bandas Soatá e Pret.utu, vira o quinto da carreira desta artista de 33 anos que canta, compõe, toca violão e guitarra e ainda é atriz formada pela Universidade de Brasília (UnB).

Quando fala sobre o CD, são nomes de músicxs, produtorxs, arranjadorxs e compositorxs que aparecem primeiro. Vaidade ela só tem quando escolhe o figurino sempre exuberante e o que vai no prato. Vegetariana, assim como sua empresária Poliana Martins (também sua esposa e autora dos versos da faixa “Eu posso ser mais”). Além do cuidado com a alimentação, Ellen é apaixonada por esportes e desde que venceu a primeira edição do The Voice Brasil (2012) faz atividades físicas regularmente e até investe numas corridas pelo Ibirapuera ou pelo Minhocão. Um dos seus talentos é a simpatia genuína. Bobeou e lá está Ellen trocando uma ideia com um alguém que a reconhece. Antes mesmo de dizer o nome do disco, Ellen dá o crédito às amizades que ajudaram a trazer esse “Afrofuturista” para o presente. E que presente!

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CD Afrofuturista - Ellen Oléria

A estética da nova bolacha tem muito a ver com a leveza da produção de Felipe Viegas e o toque certeiro de alabê do baiano Gabi Guedes, percussionista da Orkestra Rumpilezz; nasceu junto com os versos afiados de Roberta Estrela D’Alva e o vozeirão da cubana Yusa; traz a sonoridade das alfaias de Seu Estrelo e o Fuá de Terreiro e a plasticidade dos arranjos de Pedro Martins. O disco foi todo gravado em Brasília, onde a cantora viveu até outro dia e que aplaude a sua música desde o bê-a-bá. “A nave”, por exemplo, fala de uma cidade em movimento e remete ao avião que dá forma ao Plano Piloto, com as suas asas Norte e Sul. Ellen está fixando o microfone no concreto paulistano, mas sabe que, a qualquer momento, pode voltar. “Quero viajar mais uma vez pilotando a nave”, avisa o refrão.

“A gente tá falando de rotas e raízes, identidade, pertencimento. Por isso, o nome do disco não é qualquer futurismo, é um afrofuturismo. Não bélico, soror e solidário, mas baseado no conceito mais revolucionário que conheci na vida: o amor”, diz. Esperançosa, cita um texto de Mateus Aleluia, cantor integrante do legendário grupo Os Tincoãs e pesquisador incansável, para explicar o que narra em ritmo de samba, afoxé, maracatu, carimbo e um forró caribenho: “Nós somos a descendência e nós somos também a ancestralidade. Somos a herança e também a promessa. É a verdadeira volta, uma espiralouróboros, porque é como se fosse a cobra mordendo a própria cauda. Quando fala no ancestral, a gente fala também em quem há de vir. Aquilo que é e que já foi. Essa é a nossa forma ancestral de existir”.

Antigamente, as músicas ganhavam fama e caíam nas graças do público que batia ponto nos saraus para, só então, serem gravadas. “Afrofuturista” tem mais esse trunfo. Ellen vem testando (“Alô, alô, som!”) essa coleção há algum tempo e selecionou para a bolacha exatamente o que queria, o que provou e sabe que funciona ao vivo, o que está com muita vontade de espalhar pelo planeta. “É muito gostoso ver nos shows que o povo já decorou esse repertório. Agora temos o disco e chegou a hora de mais gente, muito mais gente (risos), conhecer o trabalho”, fala, com brilho nos olhos e o timbre macio que o Brasil já conhece tão bem. A seguir, o que Ellen Oléria escreveu de próprio punho sobre cada faixa:

A seguir, o que Ellen Oléria escreveu de próprio punho sobre cada faixa:

1. “Afrofuturo” Num tempo de muita violência, de extermínio das populações jovens e de outras espécies de vidas, extermínio baseado nas diferenças, o “Afrofuturo” nos convida a construir hoje uma reconexão com a solidariedade e com o amor – lembrando que só temos este tempo pra ser, estar e construir o desejo a partir da matéria do sonho: Agora. E, é claro, ninguém dá o que não tem, mas o que a gente tem, partilha.

2. “A nave” Há quem reclame da cena cultural contemporânea e insista em viver uma nostalgia do que transformou em mito. Os mitos são determinantes para construirmos espelhos e nos perceber em nosso próprio tempo, mas o poder real de vivenciar com prazer nosso próprio tempo-espaço é único e intransferível. Basta ter olhos para ver e ouvidos para ouvir. Inspirada no texto de um espelho poderoso, o grande Ary Lobo eu atualizo: A cidade tem movimento. Quem quiser ver, vamos passear!

3. “Intro Afoxé do Mangue” O arranjo de Pedro Martins e a execução de Felipe Viegas nos violões e teclados, os climas dos efeitos de Gabi Guedes criam essa atmosfera da mata onde entraremos a seguir…

4. “Afoxé do mangue” A música de Elielson Coelho dialoga profundamente com o conceito do “Afrofuturista”. Nós, enquanto seres viventes da mesma ordem das árvores, lutamos pra nos manter vivas diante da violência que nos cerca. Cedendo e nos moldando delicadamente ao poder do vento, estendendo e entortando nossas raízes pra conseguir o sustento e gerando os frutos do nosso trabalho e aprendizado.

5. “Slow motion” Paixão. Em slow motion, canto pro Sol que entrou pela minha janela e encheu minha vida de alegria e esperança.

6. “Luz do amor” “Só ri das cicatrizes quem ferida nunca sofreu no corpo”. Todxs que um dia conheceram o amor sabem como essa luminosidade renova a esperança, o entusiasmo e a produtividade. O hoje é a dádiva. A chance de agir, de criar aprendendo com as experiências e mantendo o foco no desejo. Pensamento criativo, palavra poderosa. Asè!

7. “Forró da Olinta” O divino, a provisão, o suingue… isso é ilê ayiê. O profano e o religioso são retas paralelas que se cruzam no futuro.

8. “Mandala” Por todas elas, que foram sequestradas, obrigadas a viver um matrimônio que não passou de anos de violação. Por todas que fugiram, por todas que foram mortas, por todas que pariram sem direito de escolher a maternidade, por todas que lutaram e derrotaram seu algoz, por todas que silenciaram pra se manter vivas, nós gritamos agora e nosso grito ecoará por gerações porque gritamos juntas.

9. “Areia” Um conto mítico de uma estrela luminosa que caiu no mar e encontrou o amor numa narrativa de consciência e memória embalada pelo clima idílico nas cordas da guitarra de Juninho de Sousa, do meu violão e do três cubano de Yusa.

10. “Eu posso ser mais” Esse poema de Poliana Martins convoca a densidade da Estrela Sírius de Dógons. Um poema poderoso! E, sim: Eu posso ser mais “Solta na Vida”…

11. “Solta na Vida” A memória como combustível da consciência. Inúmeras vozes, lugares, imagens, devires, queimam no motor que impulsiona essa nave.

12. “Samba da Zefa” A Zefa é uma fuleragem das minhas amigas de Brasília comigo! (risos). Elas procuravam um diminutivo pro meu nome e depois de tempos procurando decidiram que o diminutivo de Ellen é Zefa. Eu espero que a rebeldia debochada da Zefa chegue suave pra quem ouvir essa trilha que já começa com graça! O reforço do groove vem de uma jovem geração “Clube do Choro”, o pandeiro de Larissa Umayta e o cavaco de Pedro Vasconcellos.

13. “Afrofuturo remix” Aqui o poder do criativo curitibano Nave Beatz aponta um outro rumo possível pro nosso “Afrofuturo” inicial.

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Biografia

Ellen Oléria é uma cantora e compositora brasileira. Atualmente completa 15 anos de carreira acumulando prêmios em festivais e com 5 discos lançados. Ela alcançou com sua última turnê cidades de norte a sul do Brasil e também o público de Espanha, França, Angola, Estados Unidos, Inglaterra, Rússia, Japão e Taiwan.

Seu recente projeto musical é o Afrofuturista, trabalho em que a artista combina com maestria ritmos brasileiros como o samba, o forró, o carimbó, o afoxé, o maracatu com os timbres e arranjos contemporâneos que apontam para um encontro urbano de identidades e discurso do protagonismo das comunidades negras no Brasil.

A versatilidade de Ellen estende-se também ao seu ativismo político que podemos acompanhar no Estação Plural, talk show criado pela TV Brasil para tratar de pautas de comportamento e temas do universo LGBT. No inovador programa da TV Pública, Ellen Oléria estreia como apresentadora.